poesia

Dor

Um tempo escuro pendurado sobre minha carcaça

Desenhando pretéritos de futuros pesados

Eu, dormente, num presente amargo

Embriago-me de realidades desiludidas

E vomito palavras frias, tórridas e esfumaçadas

Mas não me fale assim

Assim não me agrada

Nada então…

Inerte, calo.

—-

Se a força que me subtrai

Fosse um oceano até minha morte

Afogaria-me sem luta

Nessa mágoa infinita dor

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Vivo!

Levantar, ressurgir, reerguer

Recobrar os sentidos para além da dor

Ressignificar o mundo e suas estúpidas incongruências

Apesar do corpo mutilado, rasgado pela alma pesada que sustenta

Suportar novamente a cruel frigidez humana

E caminhar por sobre os destroços vivos em putrefação

De uma batalha infindável, incessante e irreversível

Com um esforço sobre-humano para manter a espinha ereta,

O Coração ferido, a alma desfigurada e um sorriso mínimo

Até o próximo tropeço, a tórrida queda, o inevitável tombo

Mas erguer-se

E daqui debaixo de tudo, qualquer ganho seria louvado

O mísero cotidiano recobrado

A tortuosa e pegajosa sina transformada em missão

Os joelhos tremulantes açoitando o chão

Calcanhares, cajados, muletas e o coração

Passo a passo arranco com uma foice

As últimas lágrimas da estação

E sigo cambaleante, firme em minha resolução

Os ventos fervorosos do grande moinho

Transpassarão minhas feridas profundas

Abandonando meu andar livre à própria morte

Meu andar

À própria sorte

Mais um passo

Estou de pé

E comemoro em um grito abafado

Vivo!

Montes de lágrimas

Já não tenho mais esperança

Mas lágrimas, tenho aos montes

Brotam em cataratas das profundezas do meu ser absurdo

Algo de insólito me apontam, porque já não as suporto mais

E ainda assim elas escorrem firmes, incessantes

 

Já não tenho mais direitos, trabalho, emprego ou dinheiro

Mas tenho lágrimas, aos montes

 

Até a indignação parece não mais me servir

Com os olhos embaçados vejo as iniquidades

A fome, a exploração, a ganância, a pobreza e a destruição

O envenenamento da comida, a carne em putrefação

Sinto a dor das chacinas, das perseguições, do terror

Dos assassinatos do estado, do luxo e da ostentação

Do preconceito, do racismo, do machismo, da homofobia

 

Ainda me desespero com sociedades dizimadas, línguas extintas, culturas exterminadas

Crianças escravizadas, abusadas, catequizadas, robotizadas, violentadas

O ecossistema à beira de um colapso

A economia e a política cada vez mais podres, insólitas e sarcásticas

 

Já não tenho mais esperança

Mas lágrimas, tenho aos montes

 

O amor perdido, a alma sombria, o peito dilacerado

Todos os planos arruinados, os projetos rasgados

As palavras soltas, os versos trêmulos e o grito mudo

E as lágrimas muitas, aos montes, como uma enxurrada

 

Se o dilúvio fosse em lágrimas, evocá-lo-ia

Para lavar com dor e desgosto toda essa podridão doentia

Pra quem sabe, submerso

Meus montes de lágrimas se confundissem

Com um novo amanhecer na terra devastada

Miséria

 

Eis que a subversão se faz necessária

A imperativa sujeição torna-se intragável

Ácidas chuvas, assaz desiguais

Corroem o mudo intelecto dormente

 

De nossa massa amorfa que mofa

Enfileirada na mórbida suposta vaga civil

Gargantas cortadas, pulsos dilacerados, assaltos a mão armada

Ilegais transações suadas pela básica cesta social prometida

Assassinado brio d’alma que se desloca sedenta

 

Entre lamas de desilusões

Aos farrapos incondicionados

Exércitos de excomungados

Tiros de todos os lados

Televisivas balas escatológicas

Inseridas ambições artificiais do vão consumo…

 

Mas caia, que entre rachas e bordoadas

Sempre há espaço exploratório entre os ratos

De homens, a carcaça carcomida

De ovelhas, o ímpeto rebanho

De ilusões, qualquer carnaval ou campeonato regional

 

Bebo a ti, Ó Miséria triunfante

Que teu reinado apodreça como fortunas depauperadas

No insano hiper-mercado capital

Que os orgulhos despedaçados dos estômagos grudados que a alimentam

Vomitem em tua face todo o sangue que derramastes

Invoco aqui a ânsia e a loucura

Corroentes dos apáticos explorados

A que invistam em ti todo capital e luxúria

Produtos de tua glória

Que as fezes voem das latrinas podres da periferia

E enterrem teus soldados

Que cada tostão molhado de suor alheio

Transforme-se em uma tulipa branca

E de dentro de tua vã estupidez

Atirarás furiosa, as flores angustiantes da mesquinhez

De não ver o belo, o ser, o terno

E o tapete branco de pétalas rejeitadas

Erguer-se-á em cataratas

Lavando o pranto em jorro

Como em uma poesia bem diferida

Uma arte engajada

 

A voz cativa da mídia em ebulição

Não mais proliferando tua insensatez

Mas cantando tua morte, ó miséria

Escancarando teus carrascos

Esquartejando tuas crias, uma a uma

Imputando-as-te goela abaixo

 

E das flores, os homens

A humanidade festeja em teu sepulcro

E a glória de não mais agir em teu nome

Reina n’arte revolucionária

Entre tintas e músicas

Palavras em transe

Beliscam um a um

Os cadáveres por ti deixados.