Montes de lágrimas

Já não tenho mais esperança

Mas lágrimas, tenho aos montes

Brotam em cataratas das profundezas do meu ser absurdo

Algo de insólito me apontam, porque já não as suporto mais

E ainda assim elas escorrem firmes, incessantes

 

Já não tenho mais direitos, trabalho, emprego ou dinheiro

Mas tenho lágrimas, aos montes

 

Até a indignação parece não mais me servir

Com os olhos embaçados vejo as iniquidades

A fome, a exploração, a ganância, a pobreza e a destruição

O envenenamento da comida, a carne em putrefação

Sinto a dor das chacinas, das perseguições, do terror

Dos assassinatos do estado, do luxo e da ostentação

Do preconceito, do racismo, do machismo, da homofobia

 

Ainda me desespero com sociedades dizimadas, línguas extintas, culturas exterminadas

Crianças escravizadas, abusadas, catequizadas, robotizadas, violentadas

O ecossistema à beira de um colapso

A economia e a política cada vez mais podres, insólitas e sarcásticas

 

Já não tenho mais esperança

Mas lágrimas, tenho aos montes

 

O amor perdido, a alma sombria, o peito dilacerado

Todos os planos arruinados, os projetos rasgados

As palavras soltas, os versos trêmulos e o grito mudo

E as lágrimas muitas, aos montes, como uma enxurrada

 

Se o dilúvio fosse em lágrimas, evocá-lo-ia

Para lavar com dor e desgosto toda essa podridão doentia

Pra quem sabe, submerso

Meus montes de lágrimas se confundissem

Com um novo amanhecer na terra devastada

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